terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Três líricos interinos



Mesmo quando sou ouvidos plenos, algo na música que ouço possui um apelo irresistível para os olhos. E nada posso fazer senão ir em busca da sincronia de ambos. Prestes a ser oceano musical, um detalhe me acolhe a alma com a misteriosa pureza de seus significados. Pois qual o memorável motivo de o violinista trazer consigo um tecido tão bem urdido para servir de apoio para o queixo? O que pode parecer banal surge na verdade com tanta discrição e zelo, por sua parte, que fica difícil não reparar... Que perfume será que traz consigo aquele pardo tecido? Que mãos queridas foram hábeis o bastante para penetrar na alma deste artista? Quanto de seu suor se mescla àquela delicada verdade táctil? Será uma jamais mera memória da infância ou talvez alguma oferta amorosa alheia? Não sei; e por isso me calo a sonhar tanto quanto ele... E permaneço da mesma forma que ele comovido com cada pungente nota cujo destinatário desconheço, mas que por certo admiro, tal é a sua vocação para se doar ante o violino, para ter sempre na lembrança aquele símbolo de linho - doçura que se compartilha com meu ser já não mais aflito.

Da mesma maneira, vejo ao redor dos três músicos uma pequena mariposa que deixa no ar muitas respostas não respondidas. Afinal, por quê por vezes desacompanha os refletores para se aproximar deles? De tal rasante voo será que a mariposa absorve algo inaudito da cadência da melodia? Ou quer partilhar de suas asas flamejantes com a alegria diáfana da música? Ou quer ao menos por um momento auferir a qualidade do calor que emana destes músicos? E eu me pergunto: para quê respostas?

E por fim não poderia jamais deixar de falar do rapaz que mudava as partituras para o pianista. Com uma certa tensão à princípio, qual velejador novato, que logo com o tempo se permite gozar do ar marinho, e aos poucos compreende a sua missão por ali sempre latente. Dedica assim a pele àquele sol ardente, pois descobre o quanto de sua gana é viver para aquele lugar, para aquele frescor das ondas, que o arrebatam de salina sina - dom de haver mar para haver alma.

Obs: Obra de Turner.

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