terça-feira, 11 de junho de 2013

O quanto de mel há em teus olhos




Pela primeira vez, Ana, reparo. Reparo que teus olhos são cor de mel. Reparo justamente quando, de frente para o tanque, a dor já está estanque. "O Manoel melhorou. Consegue sentar. E até mesmo comer", me conta enquanto o mel de seus olhos ainda se faz mais mel. Manoel teve um enfarte. E foi no domingo. Por telefone é certo que nada sabia dos olhos de Ana. Para mim sempre foram castanhos. Mas não. Hoje de fato reparo. Que neste dia desprovido de céu azul os seus olhos são mel. Lembro do contido desespero de Ana no Domingo. Contido na medida do possível. Somente hoje pude saber o quão traumático foi. Uma vez que o SAMU mais pergunta do que socorre, mais se atrasa do que se movimenta qual asas. Quem ajudou no final das contas foi a vizinha ao ligar para o seu marido. Percebo então o momento em que os olhos de Ana se tornaram mais mel. Era ali quem sofria o seu esposo. E a filha aos prantos junto. A cor dos olhos não muda ao longo da vida. É a cor da vida que muda ao longo dos olhos. E de imediato a compaixão e o amor se burilou nos olhos a ponto de se tornarem mel.


Ana é sempre discreta em seus afazeres, e gentil na sua maneira de saber daquilo que gostamos. Em toda a manhã há no instante em que acordo café com leite fresco e um copo com suco de laranja. No almoço, mesmo no alvoroço de minha fome, Ana jamais se impacienta comigo. E cada prato que nos oferta vem pleno de calor e carinho. Como não havia reparado que os seus olhos são mel? Seja na cozinha, seja quando limpa a casa, noto agora que castanho não é castanho. Noto agora, no caso dela, que mel é mel. Noto que zela tanto por nós que mel é mel. Noto a sua cordialidade tão ímpar. Que mel é mel. E por mais que a viagem até aqui seja longa, mais uma vez mel é mel. E nunca, a despeito do horário que acorda, nunca o mel deixou de ser mel. A voz calma à medida que falava do marido foi uma bênção para mim. E assim com o barulho da britadeira e o chilrear dos pássaros descobri o porquê que o mel deve ser mel. O marido vive. A filha pequena parou o choro. A vida volta ao normal. Entretanto, não do mesmo modo. Pois agora e para sempre os seus olhos são mel. De um mel que se refaz ante os males da vida. De um mel tão mel.

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