quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Entre o que sou e a sombra




Amargura noturna, estrela nas trevas do outono, acúmulo de cumes no horizonte, é assim que começa a caminhada, sem destino. Quase como um prisioneiro de seu próprio lar, sem emprego, sem namoro e sem amigos, anda em torno do prédio, ao longo de seu espaço livre, como um lobo selvagem, à procura de uma presa. Em tal percurso, destacam-se alguns pequenos postes de luz, que pontilham a região do prédio com seus clarões, com suas luminescências, que a qualquer momento estão prontas para refazer aquele corpo em algo sombrio como uma sombra.

Nada lhe diz com certeza porque anda, nem o motivo de ser tão tarde; apenas anda. Não importa se é verão ou inverno, se haverá dama-da-noite ou o contorno todo do luar; apenas anda. Por mais que a perna lateje ou a moleza apareça; apenas anda. Com o passar do tempo e, à medida que sua solidão se torna maior, percebe sua sombra como companhia; uma estranha companhia que muda a cada três passos... Seu corpo, nem forte nem fraco, nas mãos da sombra se torna frágil e inconstante, como uma escultura de Giacometti. Ou, às vezes, quando já está perto da curva de uma parede, de repente e não menos que de repente, vê fulgurar uma arisca sombra do tamanho de um minotauro de Picasso, sólido, robusto e pleno de vigor. Mais a frente, ali, naquele corredor, onde já houve flores, e só resta o castanho devastado de uma floresta, percebe-se um confronto de sombras, uma disputa vertiginosa por espaço, que, com a mesma rapidez das outras vezes, se esvai.

Mesmo o fato de beber água, em movimento, confere à sombra um certo mistério, com certo desconcerto; um pôr-se à frente dos passos do solitário, com uma desenvoltura e desembaraço, que mal se assemelha àquela pessoa em carne e osso, em tendão e sangue, em pulmão e fígado, em vísceras e rins, que ali se encontra... Mas, já tão acostumado com seu avesso, o rapaz compreende por fim o exato momento em que a sombra aparece ou quando deixa de aparecer; quando se alonga pelas costas ou quando vai à frente soberana; quando mesmo parcialmente cego, a sombra, por seu turno, enxerga com lucidez; quando mesmo o suor não é só seu; quando a fome ronca em não se sabe qual estômago; quando a secura da boca viceja em ambos... Até que, sem mais, nem menos, tudo venha a ser apenas uma e única sombra, sob este único e vasto céu...

2 comentários:

  1. Meu amigo Fábio,

    as vezes a melhor inspiração vem por ai...

    E está muito bem inspirado!

    ResponderExcluir
  2. Fico feliz que tenha gostado, Sidney.

    E foi realmente um prazer escrever tal texto.

    Veio do fundo da alma...

    Abraços,

    Fábio.

    ResponderExcluir