sábado, 2 de outubro de 2010

Na minha pele, carvão e lágrimas






Talvez haja sal, normalmente, nas lágrimas; as minhas, dessa vez, eram derramadas sobre o mesmo carvão que havia nas peles dignas dos mineradores de “Como era verde meu vale”, filme inesquecível de John Ford. Sem dúvida, minha voz ou a voz de qualquer ser humano deveria conhecer, pelo menos, uma vez, o espírito de união daqueles mineradores, que entoam canções vigorosas, como se houvesse sempre um prazer de ver luz fora das minas e uma descida sedutora que lhes entrega às suas casas.
Mas, como todo grande drama, descobrimos que verde era o vale e, difícil e cinzenta, suas vidas. Nem por isso, o narrador deixa de transmitir a ternura que foi seus primeiros anos e como sua família reúne, por mais simples que seja, toda sabedoria humana. Com efeito, Ford foi capaz de tratar temas comuns como o amor, a justiça, a infância sem que se perdesse a substância rica de cada personagem. Sem que faltasse apelo genuíno nas cenas mais corriqueiras, como ver o garoto deslumbrado com os pássaros e quase chilrear a palavra “Spring” para sua irmã. Ou deveras ver a sagacidade benévola de sua mãe, a retidão serena de seu pai, o doce olhar de sua irmã, o dilema dos irmãos que amam a família, mas não aceitam a exploração do trabalho; e a grande presença do pastor. São todos fios de uma manta onde ora se destaca um fio, uma voz, uma dor, ora retorna para os outros fios, unidos numa mesma tensão, num mesmo vívido e denso entrelaçamento de emoções. Por fim, agora que as minhas lágrimas já secaram, permanecem comigo algumas imagens, que são como carros esparsos e noturnos cujo som se prolonga através da rua solitária, além decerto da calma de meu coração...

2 comentários:

  1. Que poético seu comentário, Fábio, ele sintetiza bem toda a beleza e grandeza dessa obra-prima. Parabéns, gostei muito.

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  2. Que bom que você gostou, Jamil; e obrigado por me indicar esse grande filme.

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