sexta-feira, 1 de abril de 2011

Odisseu no museu



Com o espelho diante de si, Odisseu deixava a barba escanhoada como poucos são capazes, através de uma navalha cuja precisão dependia de água quente da torneira. Olhava para si mesmo, de forma implacável, sem saber qual seria o seu posto, sempre mutável, no museu. A barba feita era a única imagem que lhe impregnava a memória e sobre a qual possuía uma real consciência durante o dia todo. Não conseguia entender o sentido dos quadros e, sob o crivo de seu intelecto, eram a mais pura representação do tédio. Sem dúvida, não entendia o motivo da morosa demora na frente das obras, já que, em apenas um relance, já se viu o bastante. “Arte é ser esperto ante a esperteza alheia; é o estilingue mais rápido que o corvo”, meditava ao molhar a lâmina. Com efeito, seus pensamentos eram rápidos como o corte da navalha e decerto não restara nada senão a cara limpa.

Apesar de não seguir nenhuma religião a fundo, herdou do pai crente a proibição de qualquer idolatria. Deus é principalmente Deus, sem a necessidade de anjos e santos, entre o todo poderoso e nós. “Não é necessário espuma quando a navalha, na temperatura certa, é boa”. Talvez seja por esse motivo que lhe fosse tão penoso estar diante da “Anunciação” de El Greco. Não havia escolha, era seu posto naquele dia. Antes de assumir o seu lugar, comeu uma banana já a ponto de estragar, com sabor pastoso, que conferia ao ato uma prévia sensação de desgosto do ofício, um querer e não querer, que se engolia a força. Assim sendo, e sem protelar mais, dirigiu-se à sua cadeira, como se estivesse próximo de receber uma injeção letal.

A sala não estava nem um pouco cheia, e como de costume o silêncio reinava com mão firme e constante. O cheiro de água de colônia ainda era forte, o que lhe dava uma vaidade e dignidade que, para ele, os quadros não tinham. Só havia um incômodo premente: a devoção que encontrava aqui e ali dos visitantes, o rompimento sem volta dos diques da alma. Sua mão atravessava a vastidão de seu rosto, sem uma aspereza. Até que os dedos encontraram as rugas sisudas, que se insinuavam bem perto dos lábios, bem ali onde os traços foram feitos para sorrir. Enquanto isso surgiu uma japonesa de aparência suave que se aproximou devagar e cada vez mais deslumbrada com El Greco, quase sem perceber a linha vermelha, de tal forma que ele teve que chamar a atenção dela: “Senhora, por favor, não chegue tão perto...”. “Desculpe, meu senhor, às vezes não sei se são os meus olhos ou o coração que avança”, disse ela, sem se perturbar, e com radiante delicadeza. Ficou deverás intrigado com a resposta, sem ter a devida audácia de olhar para a tela. Sabia sumariamente que havia “um ser com asas”, “uma pomba” e “uma mulher” e algo que temia em qualificar, algo que disparava sensações contraditórias e que refutava: “Uma Luz”.

E o mais estranho, o mais perturbador era que seus olhos quase que adivinhavam o pouso e repouso dos olhos alheios em determinado lugar do quadro, mesmo que negasse para si próprio tal feito. Quando era sua vez, naquele posto, evitava o olhar direto, era sempre um olhar torto e enviesado. Mas era o bastante, era de fato um relâmpago na planície... Durante o dia todo, algo lhe incitava a descobrir o que era aquela luz que jorrava tão densa como a água que se barbeava pela manhã. E quanto mais evitava o olhar, mais ardor enrustido havia. De repente, assim que se endireitava na cadeira e meio que por acaso, os gestos das figuras murmuravam lembranças antigas da família. Uma mistura de recato e temor doméstico que vinha da mãe e da irmã mais nova, depois que Odisseu voltava da colheita, no lusco-fusco, com seu pai. Tal lembrança era dolorosa e confusa, como as farpas da cana ao longo do corpo cansado e vencido. Que bom que afinal era hora de ir embora...

Chegou a sua casa tarde e com fome, sem que houvesse alguma coisa pronta para comer. Preparou então um ovo frito que demorava a se solidificar, pois, tal como a sua consciência, a gema dançava na frigideira sem nenhuma unidade e consistência. A ervilha que encontrou na dispensa estava dura como era dura cada idéia. Fez e comeu tudo isso na semi-escuridão e, já no banheiro, escovou os dentes com raiva e pena de si mesmo, sem ser capaz de olhar para os próprios olhos, à medida que a água afogava toda a estridência do dia, que ainda rondava a sua imaginação. Despencou por certo na cama como uma árvore centenária devastada por cupins; e apagou sem pudor.

Logo cedo, como era dia de entrar mais tarde no trabalho, resolveu dar uma geral na casa. Guardou aquilo que precisava guardar e encontrou aquilo que tantas vezes quis evitar: um álbum de fotos. Meio a contragosto começou a folheá-lo e tudo o que sofreu e viveu estava ali, em cada rosto sem riso, em cada gesto sem contornos, em cada grito sem eco. O fotógrafo era o próprio pai severo e avesso a qualquer demonstração de carinho. “Em minhas fotos, quero o caráter, a retidão e nada mais.”, dizia sempre. Rara era a felicidade na casa, apenas acontecia quando a mãe e a irmã eram pegas de surpresa, por Odisseu, quando este chegava um pouco mais cedo da colheita. Assim, sem mais nem menos, foi tomado por um amálgama de memórias: a afável sintonia entre ambas; o gesto mútuo que se alternava com a doce voz, de uma e de outra; os olhos para quem o derradeiro Sol dedicava seu brilho; as roupas nem pobres nem mal cuidadas com a alegria sóbria de suas cores; e por fim a troca de ternos sorrisos, que a luz da tarde teimava em negacear-lhe...

Tudo veio de modo tão arrebatador que de súbito deu uma vontade louca de ver o quadro, pois se sua memória falhava ao menos o quadro tinha o que queria, na íntegra. Saiu de casa com tal alvoroço que mal fez a barba como sempre fez, mal andou oblíquo como sempre andou; mal bateu o próprio ponto e de imediato pediu o que nunca antes pediria: o posto ao lado de El Greco... Bem decidido, foi calmo na sua direção sem aversão, sem medo, sem dúvidas, tudo parecia tão claro agora, como se a luz da obra fosse o testemunho que sempre escondeu de si mesmo, como se a pomba fosse a paz sincera dos entreatos, a serenidade que logo se desvanecia com a sua presença e, acima de tudo, com a presença do pai. Seus olhos compreendiam cada detalhe, seu coração bombeava o que há tanto tempo o sangue já desconhecia, o ar nos pulmões era novo, sem nenhum pó eminente e só então percebeu o quão triste era o seu presente e ao mesmo tempo o quão precioso havia de si mesmo naquele simples quadro antes tão alheio a seu modo de ver e deixar de ver a vida...


Fábio Padilha Neves


Obs: Arte de El Greco, no Masp.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Entre o fel e o mel




O Inferno é o Paraíso sem a solidão. O Paraíso é o Inferno sem o preconceito.


O Inferno é o Paraíso sem janela. O Paraíso é o Inferno sem carvão.


O Inferno é o Paraíso sem o dom dos ouvidos. O Paraíso é o Inferno sem as artimanhas do olhar.


O Inferno é o Paraíso por uma só vez no Inferno. O Paraíso é o Inferno por uma só vez no Paraíso.


O Inferno é o Paraíso sem lábios. O Paraíso é o Inferno sem hálito.


O Inferno é o Paraíso sem acústica. O Paraíso é o Inferno sem paredes.


O Inferno é o Paraíso sem sorriso. O Paraíso é o Inferno sem sarcasmo.


O Inferno é o Paraíso sem memória. O Paraíso é o Inferno sem obsessão.


O Inferno é o Paraíso sem beijo. O Paraíso é o Inferno sem unhas.


O Inferno é o Paraíso sem uma descoberta. O Paraíso é o Inferno sem a pretensão.


O Inferno é o Paraíso sem ar. O Paraíso é o Inferno sem faísca.


O Inferno é o Paraíso sem rosto. O Paraíso é o Inferno sem esgar.


O Inferno é o Paraíso sem voz. O Paraíso é o Inferno sem soberba.


O Inferno é o Paraíso sem delicadeza. O Paraíso é o Inferno sem ardil.


O Inferno é o Paraíso sem sinal de Paraíso. O Paraíso é o Inferno sem sombra e chama de Inferno.


Fábio Padilha Neves


Obs: Arte de Turner.

domingo, 20 de março de 2011

O que os lábios ainda sussurram...



A luz é a carícia dos anjos.


A janela é um favo de Sol.


A voz do coral, na catedral, é de fato a essência de seu interior, quase a única capaz de preencher a sua imponência de sagrado.


As escadarias de uma igreja, em Minas, são a confiança da alma de comungar com as distâncias.


O rio é a memória das montanhas que revela o próprio segredo a cada nova cadência.


O lago é o único espelho onde a Lua se vê sem pressa...


O azul do céu é a matéria-prima dos azulejos.


A árvore é a poesia da semente.


O bosque é o terno berço das sombras.


A estrela é o diamante que se encontra no fluxo das águas noturnas do céu.


A flor é a única maneira que a Terra encontrou de ouvir a brisa.


A fruta é a densidade da noite por debaixo da casca.


A Primavera é a saudade do Paraíso.


A criança é o pólen abundante de Deus.


As folhas de outono são cartas de despedida, cujo destino é sempre o mesmo: o chão que já foi fértil...


O deserto é o luto das cores.


O abismo é o jejum do vazio.


O cavalo é o relâmpago do solo.


O mar é o universo palpável.


As rochas do mar são os soldados da eternidade.


A praia é o rímel dos olhos das águas do mar.


A ilha é a quantidade suficiente de terra para saber o que é o mar.


Fábio Padilha Neves


Obs: Arte de Van Gogh.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Meu dia, minha noite...



Escrever é um perfume que se espalha com os punhos.


Melancolia é um quarto grande e escuro onde se procura uma janela mais por meio da umidade do que por meio da luz.


A música é o ardil feminino de tomar um sorvete de casquinha sem derramar.


Melancolia é o triste ofício do astrônomo, que possui o único dever de contar, uma a uma, as estrelas que se extinguem.


A música é o ourives dos ouvidos.


Melancolia é os dentes sensíveis demais para qualquer prazer gelado.


A vírgula é aqui e ali tão misteriosa quanto a inevitável pausa e enlevo de uma melodia.


Melancolia é uma fobia ao ar livre.


A música é noturna até que seja mais um dia de orvalho e diurna até que o Sol se apague nas cinzas da colina.


Melancolia é o Eclipse quando o Sol se põe.


A flor é a meditação da natureza.


Melancolia é o vento frio que se reconhece a direção, e que impede de saber de onde vem a brisa.


O primeiro acorde de uma orquestra é como uma folha de outono ainda não de todo seca e, no entanto, ainda assim, já possui toda a originalidade de suas cores.


Melancolia é não mais o que os olhos vêem, mas aquilo que o cisco dos olhos ainda permitem ver...


Beleza é o delicado origami das pétalas; cada dobra é obra de seu perfume.


Melancolia é uma abelha sem mel e sem colméia.


As ondas do mar chegam lentas aos pés como o rumor da voz de João Gilberto.


Melancolia é a luz no início do túnel e só...


Jascha Heifetz olha para seu violino com a mesma intensidade e calma que Rodin olha para suas esculturas já acabadas.


O Inferno é o abismo do universo: sem uma estrela que lhe oriente.


A beleza é a resistência humana ante as manobras da morte.


Tédio é o desejo de distâncias, enquanto a areia movediça enrijece o corpo...


A beleza é o último refúgio do solitário. Ainda que não se lembre dos outros.


Tédio é o peso da alma sobre os ossos do corpo.


A alma é a fortuna do corpo. O corpo é a economia da alma.


O mau humor é um palhaço decadente cuja maquiagem desmancha por causa do suor.



Fábio Padilha Neves





Obs: Arte de James Mcneill Whistler.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Íntimo tratado das cores




Nenhum batismo da cor

Surge sem um grande pintor

Modigliani transmuda o rosa e o branco

Em doce tessitura de amor e espanto

Vermeer descobre a magia do azul

Enquanto tudo é tranquilo e mútuo

Ticiano vê nos cachos dourados

A beleza de agora e outrora

O laço vermelho de Betsabá de Rembrandt

Torna ainda mais vívida a luz de seus traços

Velásquez forja o fulgor prata de uma armadura

Em meio à força e praticidade dos ferreiros

Guido Reni reconhece no verde suave do vestido

A volúpia de uma Deusa, que absorve meus ouvidos

O negro das garrafas de Chardin, dispostas no chão,

Recupera a simplicidade do mundo, em que nada é vão

O eterno cinza do Coliseu por Bernardo Bellotto

Deixa entrever o dia e o que resta de suas cinzas

E, claro, o amarelo de Van Gogh é a única cor

Que trata com mais zelo a minha dor


Fábio Padiha Neves





Obs: Arte de Modigliani, Reni e Bellotto, respectivamente.

segunda-feira, 7 de março de 2011

O que demora nas pálpebras...




A música é a dúvida
De uma cor

Não viu o céu
Não sabe que
Seu silêncio
É dentro do silêncio
Do mar

Fogo algum
A forjou
Gelo nenhum
Deteve seu ardor

Imóvel
Nem imagina
A engrenagem
Do universo

Seu nome
Vale o verso
E reverso
Do mundo:
Pérola...

Palavra
Sem passado
Cor
Cujo futuro
Ninguém
Ousa perguntar

Superfície do amor,
Sei seu lugar
Qualquer pálpebra
Agora adormecida
Guarda a sua cor...


Fábio Padilha Neves




Obs: arte de Matisse e Picasso, respectivamente.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Alguma substância lunar



O espelho é uma atividade tão solitária que toda presença alheia dispersa.


Os meus livros envelhecem comigo, embora tenham uma vantagem: a memória permanece a mesma...


Temos apenas um corpo de bombeiro para a vastidão de nosso coração.


A amizade é o primeiro esconderijo para a inquietude de alguns homens. A solidão é o último; sempre o mais precário e, no entanto, o que traz mais surpresas.


Para aquele que faz uma ansiosa pergunta sobre um livro, tenho a seguinte resposta: “Poxa, me perdoe, mas a minha mão é muito pesada para mármore tão delicado...”


A lei da gravidade: uma maneira de ter os pés no chão, sem ter outra escolha...


Sou contra a correnteza por legítima causa. Por que diabos foram me dar raízes mesmo debaixo d’água?


Simpatia é sempre a última impressão que fica.


Por que a centelha mal conduzida nos pentelha tanto?


Aquele que enche a boca para falar da verdadeira amizade, não raro se engasga com a própria saliva.


O cão fareja sem saber, ao certo, se é suor, sangue ou medo, o que fareja...


A serpente do Paraíso é uma alcoviteira que desconhecia, por completo, Adão, até que veio a maliciosa idéia de sugerir uma maçã para Eva.


À medida que você acredita ter algo muito original a dizer, some por completo a capacidade de discernir quando...


Pudor é um cavaleiro que dança com todas as moças da festa e, justo quando deseja uma delas, teme reconhecer o perfume, mas não saber qual é afinal o seu nome.


A miséria humana é um grito mudo que queima as pálpebras, endurece os tímpanos e torce as cordas vocais. É o desejo de encontrar o reflexo do azul do céu num pântano. É o ato de dissecar as vísceras em busca da alma.


Ser vesgo é quando um olho escuta o outro com atenção.


É tão mais fácil perder a piada e, ainda por cima, o amigo.


Aquele que é coadjuvante e não possui consciência, inspira o riso. Aquele que reconhece não ser nenhum herói e não guarda tampouco algum desespero, percebe que sua vida é melhor realizada nos entreatos.


A loucura é como o horizonte; só o Sol pode tocá-lo.


Ter uma boa imagem, ainda não corresponde a ter uma boa frase.






Aquele que chega cinco minutos antes da exposição acabar, e diz que vai apenas dar uma volta rápida, para não perder viagem, é como alguém que anda de montanha russa e pretende assim tirar algumas fotos da paisagem.


A mentira é como os focos de fogo numa floresta. Apaga-se um e logo surge outro.


Um epitáfio na lápide de um grande autor é a melhor maneira de tirar leite de pedra.


Sempre dizemos “Como esse mundo é pequeno”, quando encontramos um amigo querido e, não seria mal dizer “Bem que esse mundo poderia ser um pouco maior”, quando encontramos um inimigo.


A velhice é a época em que até cadeira de balanço enjoa.


De sonso para insosso é um pulo sem muito impulso.


O drama cotidiano é o fato de o efeito das causas sempre chamar mais a atenção do que a causa dos efeitos.


O farol brilha com a mesma alegria que uma criança tem de mostrar o seu dente de leite.


Há leituras que são como o mar morto: a intenção é um vigoroso mergulho, no entanto só flutuamos.


Solidão: um trovão que ninguém consegue domesticar.


Os ouvidos não possuem a mesma hesitação que os olhos para usar as suas faculdades.


Muitas vezes, a pergunta é um preconceito que não sabe vir de outra forma.


Liberdade: um formigueiro dentro de uma jaula...


Amor: cheiro de fruta no ardor da manhã.


Amor: incêndio por toda igreja, a ponto de permanecerem apenas os sinos.


Amor: casulo que leva, dentro de si, o sol frio de suas cores nada frias...


Saúde: ser de ferro e aço ante a suavidade peregrina do tempo, ser de carne e osso ante a dureza pendular da vida.


Ansiedade: riscar um fósforo no mármore mais próximo.


Ansiedade: o delírio da sobriedade.


Há situações que são osso duro de roer. Digo mais: há situações que nem a carne é algo tão fácil de roer.