terça-feira, 6 de outubro de 2009

Rembrandt: Mel Noturno







Todas as pessoas possuem um artista que admiram, sem entender bem o motivo e, talvez, o crítico seja o que mais se aproxima do abismo, do espanto diante de algo tão poderoso como é o grande artista, com o fim de estabelecer uma ponte para atravessá-lo. Como sou um crítico iniciante, vou, na medida do possível, expor minhas idéias sobre Rembrandt.
Claro que ele nos toca por sua explosão plástica, que, curiosamente, vem antes de Van Gogh. Enquanto a luz deste devora tudo o que vem pela frente, a luz de Rembrandt devora a escuridão, mas também é devorado por esta, nesse eterno conflito, o que explica a dramaticidade de seus quadros. Com efeito, Rembrandt surge como uma explosão estelar em meio à escuridão, uma vez que jamais o olhamos, sem nos deslumbrarmos com suas pinceladas arredias a qualquer sistematização, prontas a nos embevecer de delírio.
Montaigne escreveu ensaios que tinham como tema a si mesmo. Rembrandt, não menos interessado em se auto-analisar, faz muitos auto-retratos com o mesmo fim. Normalmente, as pessoas se olham no espelho antes de ir para a rua; Rembrandt não quer sair de onde se encontra, pois ali no seu rosto a tudo sobre a vida; toda a amargura, toda a melancolia, mas também todo o fascínio por este mundo. Ali, naquela parcial escuridão, e longe de rumores, Rembrandt desafia o tempo, converte-o em vivacidade.
Além disso, Rembrandt faz mulheres que são por inteiro, cuja idade não importa, pois sempre possuem uma dignidade magnífica, sendo que, mesmo que não olhem para nós, ao mesmo tempo não podemos tirar os olhos delas. Um nu de Rembrandt é tão sedutor e terno como um nu de Modigliani, tão intenso como cheiro de chocolate, antes da mordida. Agora, quando o tema é a velhice, não importa se masculina ou feminina, Rembrandt não é de modo algum romântico, pois nos põe diante do inevitável, nos mostra que a lâmina do tempo corta implacável. Por fim, não é a primeira vez que falo, aqui, de Rembrandt, e não acredito que será a última, tamanho é meu fascínio por seus trabalhos.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

A energia que vem das mãos




O piano destaca-se dos demais instrumentos por seu tamanho, além do fato de nós irmos até ele, e não ele até nós. Um violino caracteriza-se por se acomodar no pescoço e o violoncelo perto do tórax. Com as duas mãos, a flauta vai direto à boca e, assim, pouco a pouco, percebemos uma mudança de comportamento, de acordo com o instrumento.
Com a harpa vemos que o músico também se inclina na direção do instrumento, mas de suas mãos sempre sai um som que mais parece vir do céu. Quanto ao piano, os anjos não podem tocá-lo, pois é preciso pés firmes, no chão, e uma tempestade de dedos ou, por outro lado, notas que só o resvalar da brisa traz.
Sem dúvida, sei bem o que é gravidade, não através da maçã de Newton, mas sim quando Glenn Gould senta à frente do piano. Seu corpo esguio pesa, e suas mãos caem impetuosas sobre o piano, de um modo voraz; Gould avança ao longo das notas, como se fosse um alpinista, cada vez mais enfeitiçado pela altura. A boca dele não consegue ficar parada e, então, balbucia aquilo que as mãos tocam como se fossem folhas, que giram em torno de si mesmas, por causa do vento. O piano pode não ter quatro pés, assim como não tem quatro bancos, mas nada tal como ele (a não ser que se fale de uma mesa), faz aproximar tão bem as pessoas...

quinta-feira, 30 de julho de 2009

O traço vivaz de Saul Steinberg


O esboço é normalmente o princípio de algo que ainda se pretende aperfeiçoar; pensa-se na pintura que virá depois, no passo árduo e prazeroso que se segue. Isso até que conhecemos o trabalho de Saul Steinberg, que procura, antes de tudo, a vivacidade do traço; a busca pelo esboço elaborado que já é obra final. Com efeito, ele só precisa de caneta tinteiro e nanquim para nos seduzir com sua linha irresistível e sonhadora, isenta de um fim adequado ou tradicional; a linha pode sugerir tanto sobre o ser humano, que cada vez que vemos um de seus desenhos, saímos revigorados.
Enquanto uns falam “Faça isso bem feito”, Saul fala “Faça isso mesmo sem jeito”, ou seja, encontre a sua voz, o seu timbre em meio aos outros. Não se pense, com aquela frase, que haja um ato displicente; pela postura quase pensamos nisso, mas quando vemos o ato, negamos. Steinberg tinha nas mãos fios de lã e, em vez de tecer, ele achou certo percorrer o espaço com tal linha, compreendê-la em seu poder de sussurrar, à medida que se fala. Agora, gostaria que alguém me desse uma definição da mulher e do homem com tanta verdade e simplicidade como ele fez. Saul sabe dar valor ao branco do papel quando há tinta...

domingo, 5 de julho de 2009

Paris não é Paris sem Doisneau




Quem deseja conhecer Paris e, às vezes, não tem como, não fique triste, pois Robert Doisneau, em suas fotos, mostra toda a magia que há lá. Doisneau não é o primeiro artista que se fascina pelo beijo; antes dele, Rodin teve nas mãos a argila e através dela o moldou para sempre e Klimt, de forma vívida, também o fez na pintura, mas talvez o fotógrafo tenha sido o primeiro a apreender com tanta verdade o beijo na rua.
O beijo, por mais que seja algo natural e que aconteça em qualquer lugar, é como a Lua que, quando surge, derrama sua luz por quem passa. Sem dúvida, o relógio é para os apressados, o que o sino é para os enamorados... Doisneau estava sempre em busca da delicadeza e assim vemos um casal que não resiste ao beijo, enquanto a vida continua; ou uma mulher de quem só se vê as pernas e de salto, no meio-fio... Doisneau não fotografa pessoas e sim o Amor latente nelas, ou antes, se sai melhor quando isto acontece; não fotografa sem se contagiar pelos pequenos detalhes, sem os quais a vida deixa de ser o que é: Enlevo...

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Ao encontro da luz




Em Portrait of an Artist, um documentário sobre Frank L. Wright, percebemos a tamanha consciência do arquiteto em relação às possibilidades que um terreno permite, indo muitas vezes além dos prováveis limites. Desde o começo da carreira, é autor de projetos que, mesmo sem ser ousados, tais como veremos, são ao menos de um despojamento louvável.
Wright impressiona por sua inventividade que abrange não só casas, prédios, museus e jardins como também móveis, vitrais, relevos esculpidos e até brinquedos. Tal profusão de atividades é de vigor extremo, uma vez que compreende o valor de cada coisa sem nunca deixar de lado a harmonia do conjunto. Se alguns teóricos chamam a atenção da cultura japonesa como influência, podemos dizer que a natureza que circunda as casas de Wright não é tão serena como um jardim japonês. A meu ver, o arquiteto extrai da assimetria das árvores e solo, ponto de partida para a riqueza plástica de suas casas; linhas que avançam e recuam, o uso de pedras como estrutura e parte da superfície material da casa, tudo isso nos leva a entender melhor o motivo de sua arquitetura ser chamada de orgânica.
Nunca se viu tal como aquela famosa casa sobre a cascata algo tão integrado a natureza, mas Wright não é só mestre de exteriores. Suas casas vistas por dentro são acolhedoras, espaçosas e de luz diáfana. O motivo é a lúcida compreensão da casa como um corpo que deve sentir-se bem por dentro e se movimentar com graça e elegância por fora. Agora, o fato de a luz ser diáfana deve-se ao modo de às vezes ele trabalhar esse vidro com formas abstratas e cores suaves; não contam histórias como os vitrais de catedrais, mas enriquecem a atmosfera da casa.
Com o passar do tempo as curvas começaram a viver em suas formas; basta pensar na casa de 5.000 dólares que fez, até chegarmos a projetos de maior porte como o museu Guggenheim. Se naquela pequena casa vemos a simplicidade com que usa a curva, já no museu somos seduzidos por sua espiral que contagia tanto como o bolero de Ravel...
F. L. Wright a cada novo trabalho reagia à condição específica do local para assim realizar seus projetos. Vendo seus trabalhos penso naquela poesia de João Cabral de Melo Neto sobre Paul Klee: “Sem medo, lavava as mãos/ do que até então vinha sendo”. Só que para tanto, em vez de sair à noite, F. L. Wright gostava mesmo era de sair à luz do dia.

terça-feira, 16 de junho de 2009

A voz que também é para os olhos




Maria Callas é ótima para se ouvir em cd, até que a ouvimos no You Tube, e aí parece que sua voz ganha outra amplitude e densidade. O que já era uma voz de rico cromatismo, agora se torna palpável de uma forma ainda mais intensa, pois voz e corpo sugerem uma doçura e dramaticidade que vai além da mera rotina. Somos então transportados e guiados por esta linda mulher; pelo que ouvimos batemos asas, e pelo que vemos mantemos a altura sem precisar de algum movimento. Callas responde à própria voz com gestos de extrema vivacidade, e o curioso é que o sentimento é tão forte que quando a música chega ao fim, ela ainda demora certo tempo para voltar da viagem que acabou de fazer. Escutá-la é perceber como modula a voz suavemente sempre encontrando a melhor afinação para o que pretende. Deve ter sido maravilhoso para quem viu Maria Callas, vestida de vermelho e porte altivo, na fronteira entre o mundo e o palco, a ponto de conferir vida a cada nota... Depois de vê-la em algum vídeo, você leitor, nunca mais a ouvirá sem uma doce memória visual.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Miragem de Pedra







Cristiano Mascaro tem uma bela compreensão das qualidades de cinzas encontradas numa cidade. Sua foto, vista ao vivo, sugere um mundo de fascínio onde céu, prédios e árvores possuem poderosas correspondências. É de fato uma miragem de pedra... A névoa contribui muito nesse sentido, mas Mascaro não pára por aí, já que seus trabalhos são uma intensa pesquisa por formas das mais variadas; Cristiano primeiro se depara com a cidade, com o parque e com a rua para ali encontrar a forma no que possui de vital, pois quando vê um carrossel, busca um ângulo que condiz com a dinâmica do brinquedo, ou quando vê a ruína de uma casa, procura um modo de explorar a geometria do que ainda se encontra lá. Cristiano converge elementos, a princípio, díspares como um prédio desativado e uma ponte que juntos adquirem uma bela consistência plástica. E não só o velho como também o novo provoca a sua sensibilidade, basta ver “Tokyo#1”, que chega quase a ser um quadro abstrato e que são, na verdade, prédios que se conjugam incisivamente. Além disso, Mascaro num relance, numa visão extremamente aguçada, apreende os matizes de luz de um corredor de metrô, que passa tantas vezes despercebido por tantos, como na foto “Lisboa#1” e com esta o requinte a que se pode chegar uma foto. Cristiano mostra enfim como as fotos podem ser mais do que um simples registro, mais do que um por aqui passei; o que ele nos diz é que lá há algo denso a ser visto, não é uma mera ruína, mas aquela ruína... Não é uma cidade que só lembramos da poluição; com Cristiano Mascaro queremos chamar qualquer lugar de nosso... Uma ótima exposição esta na Galeria Nara Roesler.