sexta-feira, 6 de julho de 2012

Saber que dos dias vêm as noites





Saber que dos dias vêm as noites,
que do amor vem ainda mais amor,
que do sol vem a fortuna
do luar,
que do beijo seminal vem a alegria
de outros beijos,
que do rio vem tudo o que há de promessa
para ser mar,
que da carícia nada vem que não retorne
na forma de um milagre,
que do amanhã vem,
sem jamais deixar de vir,
a certeza de ser nosso comungante dia 7 –
me faz muito mas muito feliz.


Obs: Obra de Chagall.

Dedico à minha doce Jana.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Ao longo do caminho


Num estado de arrebatamento, apoderou-se de mim o ímpeto de realizar um documentário poético. Com poucos recursos que, no fundo, me permitiram talvez compreender melhor tal linguagem, a ponto de reaver a aventura que há em mim. Capturei todas as curtas cenas em meu próprio bairro, ciente do lirismo que encerram – lugar onde nasci e vivo. Decerto cada tomada foi feita de modo amador, mas quem não é o amador senão aquele que ama o que faz? Foram todas tomadas feitas ao acaso? E por acaso não há verdade e descoberta no acaso?


Seria mesmo sério que, por mais que eu não quisesse, a minha mão tremulava? Sim; e tremulava junto, de prazer, o meu coração...


Assim apreendi talvez o relevante para me arriscar. E, com ajuda de meu amigo Thiago Prudêncio, pude fazer do risco um alento para os olhos contra qualquer cisco. Prudêncio deu-me uma ótima perspectiva das possibilidades latentes das imagens e das frases em áudio que gravei de alguns pensadores. Ajudou-me a pôr cada frase a respirar no seu devido lugar para que houvesse faísca naquilo que se vê.  E o fato de meus pés chutarem um cascalho logo na primeira cena faz, à sua maneira, um convite para a caminhada. Cena que, em meditados fragmentos, será o fio condutor da narrativa. Surge ao longo do documentário tal fato a fim de se estabelecer um elo com as outras tomadas. E o curioso é que este caminho é visto muitas vezes de viés, de acordo com a plasticidade inerente dos muros, da pátina ou pintura que revelam. Além, é claro, da maneira como uma frase energiza o que talvez haja de duradouro ali presente. E mesmo que não seja tão imediato o elo entre imagem e som, vale a pena deixar-se levar pela cadência que evocam.
Mas, não de outro modo, talvez seja possível perceber o relâmpago que precede a chuva, assim como a chuva que preconiza outro relâmpago. Resta agora saber se serei tão feliz no que digo quanto no que fiz...

terça-feira, 3 de julho de 2012

O homem




O homem
Meio lobo
Meio Carneiro
De si mesmo,
Não sabe o que é recreio,
Nem sequer sabe o porquê veio,
Já que logo logo
Abocanha a presa um tanto cego.

Sai depois em fuga
Com sombras que são seu rebanho,
Sem lembrança de antanho,
Sem qualquer lugar
Para repouso.

Os olhos,
Entre o azul e o castanho,
Devastam a pedra das montanhas -
Sem manhãs, nem manhas.

Uiva
Até que os novelos de lã
Sejam, mais de ti, lívido limo.

Uiva para o nada.

Uiva porque a fome de nada
É tudo.


Obs: Obra de Francis Bacon.

Violeta Parra e Samico - denso e doce enlevo




Antes de qualquer rumo, desaprumo-me de tudo o que já vi sobre Arte para me entregar à inocência magistral desses artistas latino-americanos. São capazes de grande apuro técnico de acordo com o que há de mais profundo em suas culturas. São artesanais no extremo salutar da lucidez. Cada qual pleno de seus respectivos povos. Ele é brasileiro do Nordeste sonhador e celeste. Ela é chilena que abarca com seu coração o Chile inteiro. Enquanto ele grava na madeira ardente, ela tece como que das profundezas do de repente. Tão distantes e tão próximos. Firmes na vontade de uma densa limpidez no labor artístico, como se ambos sempre recuperassem o frescor de elo entre o ser humano e os bichos, numa alegria que as cores não escondem, pois a linha tecida persevera, a goiva destemida escalavra – em mútua fome e fervor de mundo. 










A cor de Violeta Parra inebria - brisa do mar do Chile. Acalenta qual irrefreável melodia. Entusiasma para jamais serenar a noite. Rouba do frio chileno um calor por mais humanidade, por mais verdade entre as pessoas. Bem ao gosto de Samico, embora em outras aragens e temperaturas que caracterizam tão bem a mitologia própria da terra da seca e do Sol. Quando há água, a cor é voluptuosa. Quando uma ave vem com seu porte altivo, a cor é repleta de candura. É na simplicidade que ambos auferem magia ao mundo. Na doçura que se reafirma sempre entre a realidade e o sonho. No poder de plasmar memória e imaginação com tanta convicção. Uma com o fio, o outro com o vinco.








Com tal poesia e originalidade que nem mesmo se sente falta da tradição européia, pois Parra e Samico trazem uma ingenuidade que talvez apenas Henri Rousseau, aquele que não seguiu nenhum ismo, possui de paralelo entre Continentes. Sem renovar tal como eles o fizeram em densas técnicas, mas prenhe de vitalidade e ânimo. Verdadeiramente capaz de criar o inusitado. À par de um sonho chamado pintura. É dessa forma que se pode descobrir o quanto a arte universal comunga com as raízes profundas do povo. Não é para menos que todos tinham uma maneira sempre maravilhosa de ver a realidade, a ponto de transmudá-la em algo mais pungente. Cientes de que para espelhar o humano, deve-se espelhar o outro. A outra e mesma face que não é ninguém senão o povo simples.


Obs: Respectivamente, obras de Violeta Parra, Samico e Henri Rousseau.

sábado, 30 de junho de 2012

Aquele olhar teu





Aquele olhar teu
Que não pude ver
Enquanto dirigia,
Já que,
Em alguns momentos,
A atenção ao trânsito
Não me permitia –
Sim,
Aquele doce olhar
Todo voltado para mim
Tinha alguma duração
Que na verdade não possuia fim;
Respirava o que havia
Nele de puro jasmim.

Pintava o que decerto
Não pude ver
Senão na imaginação.

Tal como algo de praia
Em cujos pés eu sentia alegria,
Eis que vinha o mar com sua brisa,
Eis que vinha teu olhar
Com indissociável ternura.

Olhar que se soma ao encanto
Dos outros olhares teus
Que sempre vi com tanto encanto.

Olhar que por não ter visto,
Mas pressentido –
Amo...


Obs: Belo olhar de uma imagem de Matisse.

Dedico à minha doce Jana.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Quando o amor é amor



Quando o amor é amor,

Não vem sem algo de dor.

Mesmo aquele tão querido e distante olor,

Dói.

Ver, na foto, sempre aquela bela e doce cor 

Dos lábios - dói.

E se dói é porque é amor,

E se dói é porque não posso conter o ardor.

O que será então de meu sentimento 

Em tal pungente vórtice?

Será força amorosa,

Bem sei -

Já que reverbera em cada braçada.

Com suor, com água salgada,

Com sede e decerto mais nada,

Mais nada,

Senão a promessa de ti.

A promessa que jamais cessa de teu amor.

Regressante de brisa,

Alvissareiro de profunda alegria.

Doce meio que tenho de me manter por inteiro.



Obs: Obra de Paul Klee.

Dedico à minha doce Jana.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Maneiras de refletir sobre o medo



O medo,
Na verdade,
É um arremedo
Do nada.
Quanto maior
O seu alcance,
Maior o terror à estrada.
Sem que nela avance
Sequer um visível amigo
Para assim dizer que
Cá a paz está comigo.
Uma vez que em tudo
O que cada olho vê,
Jamais faz do lindo cosmos
Senão um reincidente chiado de TV.

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Medo
É ser daltônico
Do olfato
Quando
A vida exige de nós
Um reconhecimento
Das cores,
Um discernimento
Da variedade
Assombrosa
Ou não
De suas peculiaridades.

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Cedo ou tarde,
Surge o medo:
Não sem alarde,
Não sem seu avesso.

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Vento
Ao longo da alma
Que sempre encontra
Reentrâncias
Por onde penetrar –
Eis o medo.

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Quem possui medo
Sempre se impressiona
Com qualquer barulho
Que venha pleno
De silêncio.

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Medo é um trejeito
Da alma
Para o qual
Sempre se dá um jeito.


Obs: Obra de Munch.