quinta-feira, 7 de junho de 2012

Se dias fossem flores




Se dias fossem flores,
Já haveria um campo inteiro
De alegria florida juntos,

Se beijos fossem estrelas,
Haveria o bastante de fulgor
Para confundir a noite com o dia,

Se candura mútua fosse chuva,
Quem diria que certa vez
Houve sertão no Mundo?


Obs: Obra de Matisse.

Dedico à minha doce Jana.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Nem de todo triste




Na tristeza,
Fico meio
Sem palavras,
Pois tudo o que
Eu mais queria
Era um pouco
De rumo sem névoa.

Névoa esta
Que não me permite
Enxergar com as mãos
O Mundo.

Uma vez que
Tocar algo
Com algum objetivo
É quase sempre
Tocar o vazio.

E entre os dedos
Não fica nada
Senão o frio
Do frio.

Ao menos,
Para a minha alegria,
Tenho o doce
Acalanto
De teu amor,
Que verte
Sussurro em canto
Miraculoso.



Obs: Obra de Van Gogh.

Dedico à minha doce Jana.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Em teus beijos




Em teus beijos
Sempre reencontro
O prazer da vida,

Fato que aumenta
A cada dia,
Assim como
Tudo o que é semente
Nossa se transforma
Em colheita.

Sem receita
Que não seja
Um pouco de chuva
Todo santo dia:
De encanto em acalanto.

Pois ser contigo
Jamais deixa de ser
Um modo belo
De ser comigo mesmo.


Obs: Rafael Sanzio.

Dedico à minha doce Jana.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

André Kertész: o arroubo das formas





Mal sei
Como adentrar
No mundo
De André Kertész
Sem me comover
A cada passo,
Como se fosse
Possível,
Numa mesma alma,
Ardor e cálculo –
Sempre de um modo
Tão belo e genuíno.

Pois se há
Cálculo
É sem dúvida
Através do longo
Ardor dos olhos –
Justamente
Quando faro e saliva
Apreendem o essencial,
Uma vez que a saliva
Jamais transborda,
À medida que
A consciência
Cada vez mais
Depura o inaudito.

Percebo também
Que o olhar de Kertész
Não é apenas
O de uma pantera noturna:
Vai além
E busca no lampejo
Diurno
A afirmação da vida.

Descobre na beleza
Do assobio
O momento em que
Desvanece o esboço
Para ser algo
Mais duradouro.

Sabe, como ninguém,
Quando a onda
Vem plena
De espuma e brisa
Ao longo da praia
Da alma.

De tal modo que
Nem sequer
Nos lembramos
Do pó que somos.

Afinal, tudo é pólen
Em seu trabalho.

E quanto
Mais misteriosa
A flor,
Mais me arrebata
De alegria,
Mais me arrebata
Com seu doce
Sonho.

Haja visto que
Uma imagem
De André Kertész
Possui, na verdade,
O frescor de um milagre,

Qual chuva
Que vemos
De uma marquise,

Qual perfume
De jasmim
Cuja gola de camisa
Nega que haja fim.

E se há
Alguma possibilidade
De verdade no mundo,
Tal verdade
Jamais fica longe
Do olhar de Kertész.










Obs: Obras de André Kertész.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Doçura noturna





Bem sei que

Te espero

Como quem aguarda

Embevecido

Todo belo luar.


Espero-te, por sinal,

Meu amor,

Como quem anseia 

Da serena ceia

A sobremesa.


Espero-te,

Vida de minha vida,

Como quem delira

Diante do mirante

De meus sonhos.


Ah, te espero,

Minha querida,

Como quem pinta

O que há de luminescências

No jamais efêmero quintal.


Sim, de tal modo

E com tanta gana – te espero

Como quem segreda

Ardor nas palavras -

Subterrânea brasa da grelha.


E cada vez mais te espero

E cada vez mais te amo

Como quem encontra

Em cada pérola

Sentido para a concha.


Enfim, te espero

Sim

Como quem afirma

Jamais haver direção

Sem as estrelas de teu firmamento.


Obs: Obra de German Lorca.

Dedico à minha doce Jana.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Aquele arrependimento que desladeia




Arrependimento
É um dia de outono
E folhas secas
Sem sequer vento.

É a palavra
Céu
Sem sinal de acento.

É ter a alma
Rápida demais
Enquanto tudo é lento.

É ser atento
Quando se poderia
Ser menos reatento.

É saber que
Jamais se cala
A contento.


Obs: Obra de Francis Bacon.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Poemas, apesar dos problemas




Quando houver
Algum redemoinho,
Faça por merecer
Tanto a asa, quanto o ninho.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Todo deserto
É um acerto
De contas
Com a solidão.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Nada avulta
Com tanta urgência
Quanto a pergunta
Feita com paciência.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Não procure influir
No destino alheio:
Tanto quanto o seu
Veio sem saber por que veio.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Nenhuma mentira
Conforta ou abençoa:
Quando algo se esconde,
Nada de fato evita.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Ocorrem horas
Em que é melhor
Ser surdo
De olhos bem abertos.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Não se preocupe:
Entre a matéria
E o espírito,
Deus esculpe.



Obs: Obra de Iberê Camargo