terça-feira, 19 de julho de 2011

O que há de sublime em Georgia O’Keeffe




Georgia O’Keefe não é apenas uma grande artista que se encanta com a vida. É uma pintora que, sobretudo, percebe a sensualidade virginal das flores, a riqueza voluptuosa de suas dobras: sempre plenas de carícia. Não é de outro modo, a atração que cada cavidade sugere, como se fosse tangível as profundezas do Amor, como se a cor, ora clara ora opala, fosse toda essência e calor do corpo de uma mulher, como se o pincel fosse apenas o movimento sem cessar da ternura.





Nenhuma experiência de O’Keeffe origina-se sem pathos, sem esta extrema vitalidade diante da exuberância e intimidade das formas. Acredito que é por este motivo que as paisagens do deserto possuem algo de artificial, pois a força de seu trabalho consiste na doce proximidade, no denso mergulho que a distância panorâmica não possibilita. Tanto tenho fé em tal crença que até mesmo quando pinta a carcaça de um animal – o que tenho a tentação de chamar de “flor de cálcio” – descubro uma maior intensidade da artista pela maneira como penetra no âmago sedutor das formas, quase a ponto de perder os limites e contornos originais. Georgia, tal como a abelha, vai do néctar ao mel, do mel ao néctar, numa vigorosa viagem em busca do fundo ardoroso do mundo.

Fábio Padilha Neves

Obs: Obras de Georgia O'Keeffe.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O negrume noturno




O batismo da noite é um feito para poucos e ninguém o fez melhor que Goeldi. Assim, deu às suas gravuras um inconfundível sinal de nascença e, com ele, um destino; sempre vívido, sempre através de um ponto de fuga insólito e à beira da finitude. Tira da madeira e de seus veios a veemência da luz, a energia latente do mundo; jamais houve uma linha gravada tão voraz e tão plena do ar da madrugada. Quando há luar, penso no branco ovo cozido, seminu, e reparo que o fulgor de seus raios possui a fragilidade quebrantável das cascas do ovo. Os homens que perambulam pela cidade carregam consigo o peso da própria solidão e não raro carregam o peso da própria noite. O chão faz denso eco que logo se perde com as sombras indiscerníveis. A cor, quando surge, nada mais é que um sonho que acabou de se dissolver e que deixa para nós, já despertos, apenas uma frase ou uma imagem para todo sempre. Até mesmo, o peixe de suas gravuras me traz uma pergunta: saiu do fundo do mar ou do abismo líquido das angústias do artista?

Ainda hei de experimentar a morte, só espero que não seja através do bico inclemente dos urubus de Goeldi... Ainda hei de experimentar mais a vida, só espero que haja o alento convicto, o drama perspicaz como esse grande artista a observa. Espero que minhas noites sejam absorvidas pela integridade indevassável de suas gravuras...


Fábio Padilha Neves




Obs: Obras de Goeldi.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Trágico ou alegre sou...



Trágico mesmo é não confiar no próprio sorriso.

A amizade é o controle da própria expectativa.

Trágico mesmo é não haver tempo para a simplicidade.

A amizade é uma pergunta que não se transforma em intimação.

Trágico mesmo é um pouco de ar sem vôo.

A amizade é a telepatia da confiança.

Trágico mesmo é um pouco de chão sem a consciência da própria leveza.

O comediante é o único que possui sangue frio sob pressão.

Trágico mesmo é o banho de mar com pressa por água de chuveiro.

O comediante escuta uma história com a acuidade da memória, sem se perturbar com o desfecho da situação.

Trágico mesmo é a rude mão que jamais conheceu a maciez do rosto de uma mulher.

O comediante diverte-se com o fato da peteca ser de areia e não se saber até onde vai com seu furo.

Trágico mesmo é a comédia que nunca foi trágica.

O comediante exerce a lei da física de Einstein: matéria se transforma em luz, luz se transforma em matéria.

Trágico mesmo é que toda Lua é trágica quando estamos sós.

O comediante espirra e ninguém diz saúde: vai que é pretexto para piada.

Trágico mesmo é que quando me falta palavra ainda não deixo de ser eu.

O comediante é um ladrão que rouba de outro ladrão que não sabe que é ladrão.

Trágico mesmo é que meus olhos são pequenos demais para a alegria e grandes demais para a tristeza.

O comediante ouve o que deve e fala o que os outros duvidam ser o seu dever.

Trágico mesmo é que me confundem com quem realmente sou de vez em quando.

Não é o comediante que é inconveniente: é a vida dos outros que é muito convencional.

Trágico mesmo é que a vida é longa; somos nós que a abreviamos...

A comédia é como a seriedade de uma pele ao Sol – sem protetor: uma hora descasca.

Trágico mesmo é que quando me olho no espelho, esqueço de encarar os meus próprios olhos.

O comediante fareja o silêncio por trás de cada palavra.

Trágico mesmo é que sou tão pouco, até mesmo quando sou muito...

A comédia é a descoberta da chispa onde cabe a alegria.

Trágico mesmo é que a minha voz dura melhor no papel.

O bom humor é a única e eficiente forma de esperança.

Trágico mesmo é que o meu silêncio faz eco quando estou entre muitos.

O bom humor vai além da pretensão de ser engraçado.

Trágico mesmo é que a respiração é uma eterna despedida.

Não há igualdade na vida até que a verdadeira amizade não seja capaz de reinventá-la.

Trágico mesmo é que a minha memória é muita vaga quando diz respeito a um perfume...

Toda amizade descobre os vícios da própria amizade.

Trágico mesmo é que a ponta de minha caneta tem mais tinta do que eu sangue...

Procure um Dom Quixote e nunca encontrará junto outro Dom Quixote, sem serem tristes. No entanto, para cada Dom Quixote sempre haverá um Sancho Pança, a fim de que perdure a alegria.


Fábio Padilha Neves


Obs: Obra de Corot.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Desvanecentes contornos




Nervosismo é um tremor de terra que só você sente.


A pintura é como a chuva: é mais fácil saber quando termina do que quando começa.


Há livros que são como sopa de letrinhas, pois só mesmo quando você está cheio é que você começa a reparar nelas.


O medo é uma diarréia crônica com hora e lugar marcado: apenas não se sabe qual será a comida...


Picasso deslumbra mais não quando provoca estilhaços formais, mas sim quando o cálice ainda é cálice, mesmo que trincado.


Não há maior sinal de respeito para as contradições do ser humano que o silêncio benévolo.


O bom humor é, acima de tudo, uma maneira de ver por baixo de tudo.


A roupa que o palhaço sempre quis usar, sem receber muito crédito do outros, é a de luto.


Se um ladrão pretende roubar a casa de um pobre, este prefere que aquele entre pela porta dos fundos, para que talvez assim dê uma melhor impressão de sua pobreza.


Para cada assunto velho, o bem humorado burila uma brincadeira nova.


A amizade, a meu ver, já se mostra madura, logo nos primeiros momentos, assim como o som oco de um coco mostra que dentro não há carne.


Quando tentamos ler os pensamentos dos outros, só conseguimos, na realidade, ler os nossos temores.


O filósofo e o poeta são indispensáveis um ao outro: assim como o engenheiro fundamenta e realiza e o arquiteto planeja e sonha.


Todo aforismo almeja os movimentos de onda, que depois que derruba sua espuma, faz um suave recuo de retorno.


O aborrecimento é um termômetro que marca sempre o mesmo clima, enquanto a temperatura interna oscila entre o frio e o calor.


O acaso é, muitas vezes, o descaso do destino.


Hoje, entendo o conselho de somente ser leitor de autores mais antigos: impede que a inveja, tão comum entre autores rivais, perturbe uma leitura.


Castas: no ocidente, a diferença de idades bem que merece tal emprego.


A vida exige de nós o absurdo de lixar um ovo sem derramar seu conteúdo.


O que melhora o comediante é a falta de presunção.


Deus e o Diabo tiram braço de ferro e a mesa somos nós...


Saudade é aquele cobertor pequeno demais quando somos apenas um.


Alguns não são flor que se cheire, outros não são espinho que se toque.


A fome é o cúmulo da lucidez.


A mentira é imaginar como será um peixe pela isca.


Monet é uma loja de perfumes: basta alguns minutos para quem é bom de faro.


Monet trai o pincel para recuperar-lhe o frescor.


Monet é como uma lente de contato: quando menos se espera já aderiu aos olhos.


Monet é sem dúvida o vigoroso balé das pinceladas.


Uma árvore alta é o assobio profundo do Paraíso.


Fábio Padilha Neves


Obs: Obra de Monet.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

À sombra da amizade



A amizade é a primavera do espelho

É reconhecer a trilha de uma floresta através do vento

É um noturno Sol e uma matutina Lua

É a chuva que molha mas não encharca

É desconhecer as distâncias se não houver um rio

É um fogo de gravetos: extingue-se se não houver um constante movimento ali presente

É falar quando irresistivelmente necessário, calar ainda que se espere de maneira tola o contrário e rir muito porque nada vai para o túmulo...

É prescindir de máscaras e que se esqueça de suas marcas

Na amizade são mais memoráveis as covas do rosto que as rugas

É a primeira consciência depois da última sensação

É a longevidade de algumas horas

É a novidade sempre docemente antiga embora nova

É a vantagem de não haver vantagens

É um futuro sem ansiedade

É o respeito pelo respeito

É o degelo dos cumes

É o arrependimento que não se confessa

É a luz do farol que tremula de leve nas águas do mar

É a pungente lápide de um epitáfio em braile

É a folha de outono que nunca sabemos quando será a última

É uma mala de viagem sem extravio, que reconhecemos, na esteira do aeroporto, mais por seus adereços do que por sua cor

É a fome que não se ludibria com a entrada

É aquele assobio comprido do vento na janela

É a veemente claridade do obscuro

É o único sincero desfecho para a inteireza da alma


Fábio Padilha Neves


Obs: Obra de Henri Cartier Bresson.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Dom da beleza




Watteau faz anjos em suas obras: só comete a distração de esquecer as asas...


O perfume de uma mulher é a sombra cálida de seu beijo.


Diante de uma obra de arte, minha alma se ajoelha como uma cachoeira.


Quando o crítico argumenta, critica e elogia ao mesmo tempo, não raro só nos lembramos da crítica.


Que me desculpem as feias e as bonitas, mas a Beleza é fundamental.


O golpe frio do vento escalavra o rosto denso e vincado de Lucien Freud, que se auto-retrata numa gravura.


Qualquer beijo está prestes a ser frêmito caso os lábios sejam de Mona Lisa.


O que pensaria Narciso diante de um pântano?


Beleza feminina jamais é contundente: revela-se melhor no suave contra-apoio de uma das pernas.


A pintura é o que os olhos ainda aguardam do abismo após despencar algumas pedras.


A igreja possui sinos

São ouvidos no enlevo

Do entardecer

O museu possui quadros

São admirados

A certa incerta distância

Pois aquecem ou devoram

Como a chama


Fábio Padilha Neves


Obs: Obra de Watteau.

domingo, 10 de abril de 2011

Fado e enfado: Paula Rego



Nada ao meu redor suscitava o que seria as obras de Paula Rego, assim que cheguei à Pinacoteca. Talvez a penumbra da chuva, talvez o breve frio do outono, talvez... Sei apenas que quando entrei de fato, descobri um estranhamento e empatia com seu trabalho, uma vez que cada obra sua é, a meu ver, como gelo seco que, por mais que se segure por bom tempo, não se consegue suportar muito, o que deixa por fim marcas indeléveis. “Mulher Cão”, um dos primeiros trabalhos que vi, mostra o que nenhum olhar jamais se esquece; a brutalidade do mundo, a condição humana em seu extremo. Desde então, percebi que seu tema não é a delicadeza, pois há algo de rude e truculento em seu modo de ver a mulher. Até mesmo quando percebemos o erotismo, através de uma mulher que procura com as mãos o fecho das calças de um homem, o olhar da figura é imperativo, dominador; e há por certo um controle que o homem ali não duvida, nem nega. Não são decerto trabalhos que se aprisionam todos os detalhes, mas é provavelmente um detalhe ou outro que nos tranca a alma, para melhor encará-la. O molho de chaves é extenso e todas são muito parecidas; assim sendo, é sempre o metal mais frio que rompe a cadeia.




Fiquei sem dúvida admirado com os planos incongruentes que cria aqui e ali, em alguns quadros, que são na verdade uma maneira da memória trabalhar de forma mais vívida, em busca de uma coesão profunda, de uma lógica em que é o drama que funda. É um trabalho que, por consequência, nos absorve por suas farpas inesperadas como é o caso da série “Aborto”, em que o corpo de uma mulher se crispa numa cama, enquanto o perpétuo balde do feto fica inerte no chão. Paula Rego, entre outros, põe abaixo qualquer crença que o figurativo está esgotado. Nenhuma espécie de olhar escapa de seus pincéis, pois se a Bíblia é Rembrandt, não se podem negar as visões apócrifas dessa portuguesa. E a exposição mostra, para nosso prazer, como seus estudos são minuciosos, com a permanência absoluta e magistral da luz e das sombras, como se indicassem a incontornável importância da atmosfera lúgubre em seus quadros. Quando afinal sai da exposição e já havia luz lá fora, senti falta da chuva e, sem imaginar à princípio, senti falta de seu recado cifrado...


Fábio Padilha Neves




Obs:"Mulher Cão", "Bailarinas", "Aborto"(pena que não achei a que queria), respectivamente.