Todo o trabalho plástico é a possibilidade de se aprofundar no mistério maravilhoso que é a vida, como se cada ato de enxergar sempre estivesse pleno de descoberta. É, sem dúvida, assim que a obra de Renato Pera me preenche; através da verdade incondicional que a arquitetura de uma simples casa desperta em nós. Aparentemente, não há nada de mais nesta casa da década de 50, que recebe o título de Somnus (Noite São Guálter), uma noite que parece chegar lentamente, naquela cor de sonho quase premonitório que é o magenta ali usado.
Tal recurso digital confere a cada ângulo da casa escolhido uma renovada percepção desta, ora através de uma foto que abrange a totalidade da casa, ora através de recortes incisivos e inesperados, como a imagem parcial do portão e do telhado, onde percebemos uma breve, mas intensa gama de tons. Outro fato importante é a riqueza e variedade de contornos, o modo como a linha pode ser totalmente retilínea ou, ao mesmo tempo, totalmente ondulante, criando assim um dinamismo muito refinado. E não pára por aí a pesquisa de Renato, porque a todo o momento ele procura o inusitado, seja naquele estreito corredor, que à medida que acompanhamos seu ponto de fuga, os tons, por fim, transmudam-se de acordo com a incidência da luz; seja quando estamos dentro da casa e cada ponto daquele espaço vazio produz uma sensação de estranheza, de incomunicabilidade, já que não há nenhum vestígio humano que normalmente lhe caracteriza. Tudo através de sua firme sensibilidade, para ver até que ponto a tecnologia é necessária ou não; como a sua delicada percepção de colocar numa parte da escada interna aquele filtro um pouco mais escuro. São sutis sacadas que fazem total diferença para a concepção final do trabalho. Decerto, é preciso muito olho e imaginação para alcançar tais resultados e um desejo de não apenas visitar um local, mas também se aventurar dentro dele; e como o próprio artista diz há na progressão de imagens vistas, um instigante suspense que, a meu ver, subverte a idéia comum que fazemos do suspense como algo que indiscutivelmente leva a algum desfecho. Sua arte mostra que o mais banal de qualquer lugar está prenhe de novidades, que basta um pouco mais de curiosidade para se fazer sentir...
Site de Renato Pera com seus trabalhos: http://renatopera.tumblr.com/#/499948181
terça-feira, 20 de julho de 2010
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Do vidro à gravura



Nem sempre temos a oportunidade de acompanhar todo o desenvolvimento de uma obra de arte. E quando tal fato é possível, ficamos deslumbrados com o ganho que o trabalho teve, com a capacidade do artista de explorar o que já era belo e que agora fascina ainda mais. Falo, portanto, do trabalho de Gilda Morassutti e de sua aguda percepção de como um vidro riscado, desses que encontramos em ônibus, traz particularidades que, a princípio, passa, vez por outra, despercebido.
Se antes já era nítida uma harmonia na forma como os riscos se cruzam ou a própria intensidade com que os feixes juntos atravessam a obra, agora ainda vamos ter a abundância da cor, a escolha precisa de cinzas e negros para enfatizar aquela incisividade vigorosa dos riscos ou, até mesmo, quando o que domina nossos olhos é a presença ousada do branco. Assim, a mudança que temos é comparável a de inventar uma melodia que apenas assobiávamos, e que agora temos a necessidade de escutá-la através da densidade de uma orquestra. Cada cor entra no momento certo, cada respingo gráfico reforça a beleza feérica dos riscos, cada vibração da cor encontra seu contraponto.
Não é mais o vigor da luz, na espessura gravada, o que vemos, não é mais a doçura da uva o que queremos e sim algo parecido com o trabalho artesanal dos pés que transformam a uva em vinho; queremos, então, a exuberância que só os artistas são capazes de criar. Que assim seja...
segunda-feira, 21 de junho de 2010
O museu é meu mar

Arte de Paul Klee
Não consigo encarar uma exposição como algo tedioso e sim como uma aventura longa e imprevisível, como se fossemos viajantes em alto mar. E sou, por profissão, um porta-voz de tal experiência e, ao mesmo tempo, audiência atenta da espirituosidade dos alunos, pois tudo o que digo vem acompanhado da inquieta sensibilidade que recebo deles. Então quando já estamos dentro da exposição e digo um pouco sobre a suavidade do mármore, sobre sua delicadeza, me dizem que parece chocolate branco. Ou então, quando digo que não se pode tocar nas obras, vejo aquele olhar demorado que possuem, como se a tocassem com as mãos. Se digo que o bronze tem o som de um sino, me dizem que não vão faltar à próxima missa. Se digo para darem a volta na escultura, escuto por um deles, que assim vai perder o mais importante: o modo como a escultura olha. Se digo que uma das peças, em mármore, parece sabonete, de tão lisa, alguns chegam mais perto para sentir seu perfume. Se digo que nas mãos de Maria, vemos o menino Jesus, então uma das crianças fala que nem ninho de pássaro é tão confortável. Posso, às vezes, até ir à frente deles e perceber depois que, um ou outro, ainda quer permanecer junto da escultura anterior. Mais de uma vez, me perguntam o motivo de um sorriso não durar tanto tempo, já o dá escultura... No entanto, não sei o que responder. Além disso, mal posso pular algumas esculturas que sou repreendido por alunos atentos. Uma vez, mostrava uma peça chamada "Ritmo" e ouvi, de repente, um assovio melodioso e sibilante. Perguntei qual era o motivo e ele, de olhar vivo, disse: - Sem a música que faço, como posso entendê-la?
Assim, depois que todos vão embora e não há nada, a não ser aquele profundo silêncio que se escuta após o último acorde de um cello, fico decerto de língua seca e cansado, mas grato por tudo aquilo que pude sentir. Percebo, então, que o museu transforma a lousa da escola em grande e arejada janela.
domingo, 6 de junho de 2010
No ardor dos braços

Foi devido ao Grupo Corpo e seu espetáculo chamado Lecuona que o Cupido sussurrou tal título. Quem já teve nos braços um corpo feminino, talvez saiba do ardor envolvido, só não sabe o quão prolongado pode ser e é a dança a única capaz de trazer a fragilidade da pele para a firmeza dos braços com tanta intensidade. Sem ela, seria impossível penetrar na vivacidade do Amor, uma nuca seria apenas parte estrutural do corpo, e não a promessa de felicidade que se persegue até o fim da música com as mãos... Se uma mulher me agarrasse tal como vemos nesta canção de Ernesto Lecuona, eu entenderia melhor o sentido de existir uma flor como a dama da noite. Se girasse ao meu redor, enquanto roça as suas saias, entenderia melhor os anéis de Saturno.
Lecuona é uma dança para aqueles que não sabem dançar, como eu, mas que admiram a vitalidade de uma coreografia, que reconhecem a sensualidade delicada que o corpo possui. Não há um movimento que não tenha a maturidade de um bom vinho, não há um olhar que não seja todo carícia. E o Amor aprende com tal simplicidade, pois o casal de dançarinos procura no corpo do outro os vãos que pedem para ser preenchidos. E a distância que, às vezes, se abre, entre um e outro, nunca cria abismos, é apenas uma breve oportunidade de perceber melhor o outro, de ouvir naquele estreito espaço a força das cataratas, o vigor carnal de dois corpos que dançam...
Mais do que apenas ler as páginas do corpo, o coreógrafo Rodrigo Pederneiras grifa as passagens mais saborosas, e confere à coreografia uma doce beleza. Nada é, ao mesmo tempo, tão vívido e tão cheio de energia; só mesmo o beijo de dois apaixonados traz tanto frêmito e tanta sede de viver. Depois de ver um vídeo, como este, no You Tube, talvez a vida volte ao normal, o que não volta ao normal é o Amor...
domingo, 30 de maio de 2010
O que não escapou dos olhos



Acredito que um filme seja sempre a comunhão entre olhos e ouvidos, sem os quais fica difícil qualquer compreensão. No entanto, pelo fato de ter que acompanhar as legendas, perco detalhes importantes da cena, o que me leva, por certo, a dar mais atenção às imagens e, quando necessário, recorrer aos diálogos. É um risco inevitável que me lembra o trabalho do tradutor, que tem como desafio manter o equilíbrio entre ritmo e rimas, enquanto as transmuda para sua língua. O motivo de tais reflexões surge especificamente com o filme “O Processo” de Orson Welles, soberba adaptação do romance de Kafka.
Soberba porque soube recriar a falta de ar que impregna as páginas do livro. E conduz o personagem da escuridão à escuridão, do vazio do trabalho ao vazio do tribunal. Da solidão entre muitos à solidão de estar, sem dúvida, sozinho. Quando vemos uma grande sala iluminada só ouvimos o som de máquinas de escrever que cai como gotas de chuva em terreno árido. Quando vemos os movimentos de K, o corredor é longo, quase interminável, como seu processo... Não há uma Beatriz que lhe salve, nem uma Francesca por quem valha à pena ir para o Inferno. E o que fica na mente, o que crava o dente na carne da alma é a capacidade de Welles e Kafka de compreender que o ser humano conhece a cor do chicote e esquece tantas vezes qual a cor de seus sonhos, pois quanto mais adentramos naquele universo, mais vemos estrelas que se apagam e buracos negros que nos devoram. Só mesmo o adágio de Albioni, que ouvimos no final, serve de contraponto para a Terra Devastada de Welles...
terça-feira, 18 de maio de 2010
Na tranquilidade da sombra


Antes mesmo de ocorrer o protestantismo, Andrea del Sarto já trazia de um modo muito pessoal a sua visão da Bíblia. Mais do que o desejo de alardear a cena de Madonna com o menino Jesus, e na mesma linha de pensamento que A Virgem dos Rochedos de Leonardo da Vinci, Sarto busca compreender a atmosfera íntima de tal cena, como se aquela sombra que os envolve fosse essencial para a delicadeza carinhosa que Maria tem com o filho. É, portanto, naquela cálida presença que Jesus recebe os primeiros cuidados, longe de qualquer adversidade externa, com aquela voz que sussurra seu nome sem a mínima rispidez, enquanto os anjos, cautelosos, dão a impressão de conduzir o longo manto de Maria para que não tropece.
Os movimentos são todos macios como a queda de um travesseiro e aqueles que ficam ao redor de Maria e Jesus preservam o silêncio reinante. Não há nada de dramático ou premonitório em suas atitudes, nenhum incidente parece perturbar a cena. O único contido alvoroço diz respeito aos anjos e a liberdade singela com que orientam as próprias asas. Quantas vezes vimos Maria à luz do dia, pronta e disposta a amortecer qualquer tombo de seu filho. E, então, que belo contraste sentimos através de Sarto quando vemos uma outra faceta daquela vida tão preciosa. Assim passamos a entender melhor o que se passou com Cristo, sem perder um minuto sequer de sua passagem na Terra, seja no burburinho da rua que outros já pintaram, seja no doce acalanto doméstico, antes de ficar mais velho e passar por todas as ásperas provações que lhe marcarão a carne e a alma.
Com efeito, é muito sutil o modo como Sarto se apodera daquela imagem, mas fica, sem dúvida, para sempre, o vigor com que compreende aquela vida de respiração serena e, por certo, momentaneamente feliz...
sexta-feira, 7 de maio de 2010
A intensa dignidade de Rostropovich

A música, em toda a sua ampla variedade, solicita de nós a arte de ter sempre ouvidos embevecidos e olhos que compreendem a melhor hora de permanecerem fechados. Chego a tal conclusão, ouvindo o Cello Concerto de Dvorak, no You Tube, numa atuação vibrante da Orquestra e de seu grande solista, Rostropovich. Já no primeiro movimento, fico deslumbrado com a orquestra que explora o tema central da mesma forma que os Deuses gregos resolvem os seus amores, impetuosos em seus arroubos e com extrema ternura quando prevalece a paz.
Rostropovich, dono de um rosto imperturbável, mostra as virtudes de um solista, pois embora não seja o maestro e nem olhe para a orquestra, tem plena consciência de como sua presença é necessária; compreende quando a soma de sons ergue uma onda cuja espuma súbita nada mais é do que a vivacidade de seu cello, exercendo todos os momentos decisivos, próprios de seu labor paciente. Com efeito, Rostropovich toca seu instrumento com a concentração de um alfaiate, com a precisão de sempre possuir uma agulha nas mãos, com a memória vigorosa de quem conhece o verso e o reverso de uma calça, a ponto de nunca se esquecer de onde partiu nem de onde quer chegar.
E é justamente, no adágio, do segundo movimento, que minhas pálpebras acolhem meus olhos e os tiram de qualquer agitação, tal é a densidade delicada que escuto; tudo isso devido àquele modo de sustentar uma melodia sem recorrer a excessos, sem nunca perder a sinceridade que aflora em toda a grande música. É assim, portanto, que se conhece o sublime apelo de um intérprete, por sua força de canalizar toda a sua energia para um mesmo fim. Algo que vai perdurar no último movimento, sem sombra de dúvida. Dito isso, posso acrescentar que vale a pena conferir tal vídeo, nem que seja para ter os olhos fechados, enquanto os ouvidos cumprem todas as funções do coração.
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